segunda-feira, junho 11, 2007

 

Léo Jaime na discoteca básica da Bizz?

Lembro de uma cena do filme Alta Fidelidade, em que o protagonista, interpretado por John Cusack, tenta organizar seus discos em ordem auto-biográfica. Achei a idéia sensacional, pois cada momento de nossas vidas tem uma trilha sonora, tudo aquilo que ouvimos em cada capítulo desse grande filme em que nós atuamos.

Pois eu começaria a organizar a minha coleção com um disco do Léo Jaime (isso mesmo!), pelos motivos que vou justificar a seguir, antes que alguém comece a gozação.

Eu tinha apenas 15 anos quando comprei o Sessão da Tarde, foi o primeiro disco que eu adquiri com o meu próprio dinheiro, ganho honestamente trabalhando como balconista em uma loja de umbanda (macumbeiro é a mãe!).

Peguei o salário de uma semana, entrei numa loja com um amigo e sem saber ao certo o que compraria, pedi para o cara da loja passar as faixas deste disco e o primeiro do Kid Abelha. Confesso que fiquei na dúvida, mas fui induzido por meu amigo a levar o Léo Jaime.

Vale lembrar que as primeiras bandas nacionais ainda estavam aparecendo, o Ultraje ainda estava gravando seu LP de estréia, o Camisa de Vênus estava começando a tocar na rádio e o RPM ainda não tinha despontado. O “niuéive” era o que imperava nas rádios, como a Blitz, Rádio Táxi, Lobão e os Ronaldos.

Como era o meu único disco, eu ouvia direto, cansava de ouvir um lado, ouvia o outro. O disco era bem despretensioso e divertido assim como os filmes exibidos na sessão da tarde. Abre com “O pobre”, que tem aquele estilo retrô de João Penca e seus miquinhos amestrados, banda da qual Léo Jaime participou.

Já a segunda faixa “A fórmula do amor”, que animou muitas festinhas nos anos 80, é um dueto com a Paula Toller, com participação de George Israel do Kid Abelha no Sax, seguida pela linda “A vida não presta” , onde Léo lamenta sua paixão não correspondida por alguma garota, que vai de carro para a escola enquanto ele só vai a pé, antecipando o estilo “Loser” de compor, uma década antes do Weezer e do Beck. Confesso que ouvindo essa música cheguei às lágrimas algumas vezes, por me identificar com o lamento dele e por ser um dos muitos garotos apaixonados pela bonitona do colégio, que nem me dava bola.

O alto astral retorna na quarta faixa, que virou hit nas rádios de todo país: “As sete vampiras”. Essa, mais uma daquelas que fazia a alegria da molecada nos bailinhos. Em “Só”, Léo canta um tema recorrente em suas canções, a solidão, mas com um certo deboche que também era sua marca registrada.

Algumas canções de protesto, como “O Regime”, “Abaixo a depressão” e uma versão bacana de “So Lonely”, do The Police, que virou “Solange”, na qual os caras dos Paralamas tocaram o instrumental e, somente agora, vim saber que era uma música contra a censura, que ainda pairava naquela época, Solange era a censora homenageada.

Os tempos mudaram, eu também, veio o Punk e o meu gosto musical foi se moldando às coisas novas que eu conhecia e este disco acabou virando objeto de constrangimento, que eu escondia lá entre os últimos LPs de minha coleção e acabou meio esquecido com o tempo, como aquele sapato velho do Roupa Nova...

Agora, com meus trinta e tantos anos eu ouço novamente o disco e várias recordações me ocorrem, os tempos do ginásio, os amigos, as garotas, a insegurança da adolescência, a ingenuidade dos grupos naqueles anos, a gravação do Programa Perdidos na Noite, do Fausto Silva, onde pude conferir o Léo Jaime ao vivo.

Se hoje em dia, com toda essa onda revivalista dos anos 80 é admissível se dizer que gosta de coisas insuportáveis como Engenheiros do Hawaí, Capital Inicial, Zero entre outros grupos que já judiaram demais dos nossos ouvidos, eu digo sim que gosto desse disco do Léo Jaime, porque foi trilha sonora do primeiro capítulo da minha vida. Os álbuns que ele lançou depois jamais tiveram o brilho de “Sessão da Tarde”, que somente agora, em pleno ano de 2007, teve seu merecido reconhecimento, sendo indicado na seção Discoteca Básica da revista Bizz. Quem diria, o velho e gordo Léo Jaime, tão sacaneado por todos, recebendo uma homenagem desta ilustre publicação.


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